Rotas do Rafael em Huayna Potosi – La Paz (Bolívia)

RotasDoRafael

Hoje no Rotas do Rafael, vou contar minha experiência assustadora explorando o pico da montanha Caca Aca, ou Huayna Potosi, em La Paz, na Bolívia. Então, vistam suas botas, peguem seus crampons e piolets, alguns kit kats amassados, e como diria um astronauta de plástico confiante,…

“To the infinity and beyond!”

1) Me fale sobre um lugar que você já esteve.

Localizado a 25 km de La Paz, capital mascarada da Bolívia, um dos Picos da Cordilheira dos Andes espetava o céu de passarinho.  Seu nome era Huayna Potosi, ou também chamado de Monte Caca Aca. E ele estava ali, imponente, do alto dos seus 6.088 metros a.a.n.m., esperando uma nova vítima. Pra quem não tem noção do que eu estou falando, o pico do Everest (montanha mais alta do mundo) está a +- 8.848,13mts.

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“…imponente, do alto dos seus 6.088 metros a.a.n.m.”

2) Qual foi a coisa mais legal que você fez / viu nesse lugar?

Tanta coisa divertida pra se fazer em La Paz, tanto programa gostosinho, com calefação e café servido na hora, e eu não sei porque cargas d’água eu decidi que queria escalar esse tal de Huayna Potosi. Não, eu nunca tinha escalado nada além do sofá lá de casa antes, e não, eu não imaginava, nem de longe, onde eu estava me metendo. Mas eu fui em uma agência de turismo e me meti. Passei em uma loja de aluguel de equipamentos, conforme indicado e testei tudo o que eles tinham a oferecer. Meus problemas já haviam começado alí mesmo, dentro do provador. Primeiro que, como mochileiro pobre fu****, não consegui achar nada que prestava, ou que não tinha furos, dentro do meu orçamento “Renner das montanhas”. A gringaiada toda de The North Face, (incluir marcas famosas como hiperlink), e eu mais parecendo uma chola latina amarrada em panos. Segundo que, como mochileiro de 1,85 rechonchudo na Bolívia, nada que eu pegava pra experimentar entrava em mim. Foi só depois de MUITOS ajambramentos retorcidos, e costuras estourando, que eu finalmente consegui algo que me cobria até as canelas. Saí de lá equipado, com um andar mais confiante que o do Pateta nas Olimpíadas, peguei um jipe, e segui rumo a base da montanha.

https://www.youtube.com/watch?v=3gN09jgHEFo

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“…dá sim pra um brasileiro inexperiente, inconsequente e orgulhoso subir até o topo dessa Nhaca Aca.”

“Três dias de subida até o cume”, disse o moço.

O guia que arrumei pra essa expedição, que não me recordo o nome agora, já tinha me alertado que dificilmente os brasileiros conseguiam chegar ao topo da montanha. A diferença de altitude era tamanha que a maioria acabava parando no segundo dia. Ah, claro, isso para alpinistas inexperientes. Pfff… Óbvio que ele não se referia a mim. E mesmo que assim fosse, essa realidade estaria prestes a mudar. Estou com a minha bandeira do Brasil e minha máquina fotográfica na mochila e vou provar pra ele, e pra mim, que dá sim pra um brasileiro inexperiente, inconsequente e orgulhoso subir até o topo dessa Nhaca Aca. Ou não me chamo Rafael e esse Blog quando eu voltar chamará Rotas do Fernando, do Bruno, do Pedro, não sei, ainda não decidi.

(Apesar dessa teoria de força e perseverança utópica que me cabia, na prática o buraco era bem mais embaixo. Aliás, nesse caso, em cima. Claro que nesse momento eu ainda não tinha ideia do que estava por vir, então continuei confiante, apoiado na minha ignorância. Isso foi tão importante pra mim, quanto inconsequente no contexto).

Depois de mais alguns minutos de Jipe, finalmente chegamos ao primeiro refúgio (chamado de refúgio baixo), onde deixei as mochilas e fui recebido por uma senhora, com uma deliciosa sopa de Quínua, carinhosamente chamado de “o grão de ouro”, pelos bolivianos (costume conservado das culturas Aymarás e Quéchuas). Quente, e uma delícia.

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“…naquela hora, eu estava pronto para atacar o cume.”

Em seguida, saí pra aclimatar e treinar a escalada nas paredes baixas, perto do refúgio. Esse era o plano. Repito, PAREDES BAIXAS. Mas o conceito de baixo por aqui era meio deturpado, e as paredes mediam mais de 30 metros de altura. Esse era o paredão de “treino”. Comecei, com toda minha experiência e agilidade, a subir e descer, subir e descer, chutando a parede de gelo com minhas novas e enormes botas e, com mais técnica do que os 7 anões, picaretei sem parar parede acima. Claro, fiquei exausto em alguns minutos. Mas eu não sou um molengão de moletom que gosta de sorvete de flocos. O cansaço físico por parte era atribuído a falta de oxigênio do ar, extremamente rarefeito, nos 4700 mts a.a.n.m do local. Mas apesar da exaustão, naquela hora, eu estava pronto para atacar o cume. Minha ingenuidade explosiva me fazia pensar que nada seria obstáculo naquele momento. Porém, apesar de minha ansiedade, acabei voltando ao refúgio baixo pra passar uma noite mais quente, conforme o planejado.

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“…mas logo que lembrei que hoje começávamos a subida ao topo, meu corpo reagiu e eu fiquei 100%.”

Até aquele dia, essa havia sido a noite mais fria da minha vida. (Até aquele dia!!!). Eu estava enrolado em infinitos panos coloridos que havia comprado de alguma chola ambulante em La Paz, vestindo todos os meus casacos furados, e mesmo assim, um vento sutil, acrobático, incrivelmente manobrava uma entrada no meu saco de dormir, me fazendo tremer feito bambu verde cercado de pandas. Dormi mal, e acordei com um mal estar fora do normal. Mas logo que lembrei que hoje começávamos a subida ao topo, meu corpo reagiu e eu fiquei 100%. Tiramos as tranqueiradas todas da mochila e, após um delicioso café da manhã de grãos de ouro, iniciamos a nossa subida, somente com o essencial.

Saímos dos já confortáveis 4.700 mts a.a.n.m do refúgio baixo para os ameaçadores 5.300 mts a.a.n.m do refúgio alto, por um caminho de pedregulhos congelados, que tentava insistentemente nos desequilibrar.

Um nevoeiro tomou conta do horizonte. Era a montanha nos dizendo que não iria se deixar subir tão fácil. Mas os intrépidos desbravadores inexperientes, continuavam em suas quase firmes passadas, sem pestanejar, sempre atrás do maldito guia, que tinha a certeza de que não chegaríamos a lugar nenhum.

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“Um nevoeiro tomou conta do horizonte. Era a montanha nos dizendo que não iria se deixar subir tão fácil.”

Quase nada se via a frente além das passadas do companheiro. O vento, que cortava forte de um lado ao outro, uivando desconsolos em nossos ouvidos, parecia nos tentar derrubar precipício ao lado, e as vezes era preciso parar e firmar o corpo nas bases e segurar as alças das grandes mochilas. O caminho era estreito, irregular, e na fila indiana, nós seguíamos montanha acima a passos de tartaruga. Agradeçam muito por essas fotos, pois a cada uma que eu decidia tirar, eu tinha que abdicar do conforto referencial de minhas grandes luvas grossas, e com meus pequenos dedos congelados, apertar o inacessível e pequenino botão de captura. Aja função anti-shake na câmera.

"O caminho era estreito, e na fila indiana, nós seguíamos montanha acima a passos de tartaruga."

“O caminho era estreito, e na fila indiana, nós seguíamos montanha acima a passos de tartaruga.”

Era como se eu estivesse em um casulo, envolto por uma proteção alugada por alguns pesos de um besouro maltrapilho boliviano, onde lá dentro, eu ouvia minha respiração ofegante, e pela fresta formada entre meu capuz e meu cachecol, eu podia ver somente a ponta de minhas botas, indo, e vindo, naquela valsa abaixo de zero. O pensamento vagueia por coisas que terapeutas procuram a anos, além de, de tempos em tempos, voltar a apertar aquele mesmo botão vermelho.

“O que que eu estou fazendo aqui?!”

Finalmente, depois de muito esforço, chegamos ao refúgio alto. O tempo deu uma melhorada depois que chegamos, mas somente para algumas fotos. Logo depois, a névoa tomou conta de tudo e o frio voltou a atacar forte. Aproximadamente 16:30 hs todos foram dormir. Não estava com sono nenhum, e pra piorar, estava um frio sem precedentes que não me deixava relaxar.

Definitivamente, a noite anterior, que de fato até aquele momento teria sido a mais fria da minha vida, não se comparava, nem no ínfimo da situação, ao frio dessa noite, no caso, dia. Era impossível dormir. A falta de sono, somada ao frio f*******, e a empolgação de estar a caminho do cume, era uma combinação explosiva. Mas eu precisava descansar. Saí pra passear um pouco nos arredores do refúgio. Refúgio que carinhosamente chamávamos de “el congelador”. Mas o frio era tanto que logo entrei e me preparei para dormir. Respirar ali em cima era praticamente impossível e qualquer movimento que exigisse um mínimo de esforço físico, já era suficiente pra te deixar ofegante. Depois de uma briga épica com o sono, eu finalmente consegui dormir. Já estava bem escuro e pior, nevando muito.

“A noite tinha uma beleza fria, fantasmagórica, que foi se intensificando pouco a pouco. No céu congelado havia mais estrelas do que eu jamais vira na vida.” O Ar Rarefeito – Jon Krakauer

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“El Congelador”

– Os fatos a seguir serão narrados cronologicamente, gerando assim mais artefatos sensoriais na leitura – 

3° Dia – 1:30 am:

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“Começamos a subida. Temperatura? -20C. Adrenalina? Mil.”

“Alooooo Alooooo, vamonos!!! Vamonooss….”. Essa foi a sinfonia que soou no alto da montanha, aparentemente 10 minutos após eu dormir. O frio já era tão insistente que se tornara suportável. Com um esforço descomunal, consegui sair de dentro do saco de dormir e vestir o equipamento de escalada. Infelizmente o Murilo, o outro brasileiro que estava comigo, não acordou muito bem e decidiu não sair do refúgio. Não tiro a razão dele. 1:10 hs da manhã, com sono, a 5300mts a.a.n.m, levantar seria no mínimo loucura. Mas eu não ia parar sem tentar. Deixei mais coisas no refúgio. Na mochila, somente água, chocolate, máquina fotográfica e minha bandeira do Brasil, que pretendia estender no alto da montanha. Criei coragem, levantei, bati no peito e disse: “Murilo, eu vou por nós dois!”. Ele logo respondeu: “Eu sei que vai!”. Bacana, porém quando abri a porta do refúgio, foi quase a sensação de tomar um litro de água bem gelada com um pacote de halls inteiro na boca. A coragem foi toda embora e voltou pro saco de dormir, e eu quis ir junto. Um breu!! Só se via o feixe da sua lanterna e a luz, vindo dos outros 4 alpinistas do grupo. Começamos a subida. Temperatura? -20C. Adrenalina? Mil.

3° Dia – 3:00 am:

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“Nós todos pensamos muito em voltar…”

“Friooooo, brrr….frioo…brrr…Puta que o pariu!!!”

Estava muito, mas muito frio.  A imagem era de 4 pessoas subindo, em fila indiana, com passos de formiga, no meio do branco mais inóspito e desolado que já havia existido, e cada um lidando com o frio a seu modo. Minhas pernas latejavam de dor, implorando para que minhas hemácias as levassem um pouco mais de oxigênio. O coração, mesmo quando parados, mesmo quando andando a 1 km/hora, batia em um ritmo furioso. O guia, em uma atitude estúpida (porém, no fim, acertada. Vocês verão que conforme o tempo passa, eu deixo de ter essa birra com o guia, e o reconheço como meu super herói andino favorito), disse que faltavam mais ou menos umas 7 ou 8 hs pra chegar ao topo. Nessa hora, o psicológico desceu ao nível do mar. OITO HORAS? Ele é louco? Eu estava andando há aproximadamente 3 horas e mal parava em pé. Éramos 5 subindo, e nessa hora, 2 resolveram voltar. Sobramos eu, uma espanhola alpinista “terminator” louca, e o maldito guia. Eu não sabia exatamente o que fazer. Nós todos pensamos muito em voltar. Até que eu parei e pedi arrego. Pra mim havia dado. Eu havia atingido o meu limite. Tentei desamarrar a corda que me segurava aos dois que seguiam, para poder me ligar aos dois que voltavam.  O guia parou, olhou pra mim, riu e disse: “Eu sabia, brasileño fraco!”. Disse isso e não me ajudou a desfazer o nó, mesmo vendo que eu estava com dificuldades. Meu sangue, por incrível que pareça, ferveu. A espanhola, que também havia parado, colocou a mão em meu ombro e disse: “Hey, vamos em frente. Você consegue mais! Lembra que você queria tanto chegar ao topo ontem. Então! Não desiste agora!”. Levantei a cabeça parecendo o Rocky Balboa depois de levar a maior surra do oponente, coloquei as duas luvas de volta, ensaiei um dedo do meio pro guia, com cara de mal e boca torta, igual a do Sylvester Stallone, fazendo ele rir descontroladamente, batendo as mãos nas coxas. Sem falar nada, ajeitei a corda na cintura, e me coloquei em marcha. Fazendo que os outros dois também continuassem. Mas esse lance emocional durou apenas 10 passos, e com a dor aguda voltando, o ar faltando, soltei mil xingamentos congelados aos céus, me crucificando por ter decidido continuar. Reclamei sozinho, e depois continuei, calado.

3° Dia – 7:00 am:

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“Exaustão: do Latim exhaustiore; do espanhol agotamiento; cansaço extremo; condição física prejudicada pelo excesso de esforço.”

Exaustão: do Latim exhaustiore; do espanhol agotamiento; cansaço extremo; condição física prejudicada pelo excesso de esforço. O momento se resumia a essa palavra. Eu mal conseguia parar em pé. Os passos moribundos aravam a neve, em um movimento de pura inércia. O pensamento vagava em direções aleatórias. O único foco era: continuar andando, e se possível, respirando. 3 Horas ainda pra alcançar o cume. Mas eu continuava calado. De repente, a espanhola, que até então havia se mostrado extremamente resistente, e que não havia se queixado em momento algum, desabou no chão a chorar dizendo que não aguentava mais. Vou ser maldoso agora, porque preciso admitir que isso me deu forças. Antes eu achava que eu era o molenga que não aguentava nada. Será que só eu estava sentindo mal daquele jeito? Será que só pra mim estava sendo uma batalha feroz de superação? A resposta era não. E com esse coração vermelho, com esse cogumelo verde, com essa estrelinha dourada, que a espanhola me deu, eu ajoelhei ao seu lado e disse:

“AGORA VOCÊ LEVANTA SUA P***!!! QUANDO EU QUIS DESISTIR VOCÊ NÃO DEIXOU!!! Agora que andei mais 4 horas depois daquilo, agora eu não vou parar enquanto não chegar no cume, mas nem f******!”

O desespero de não se conseguir respirar somado do cansaço físico extremo, e o frio desconcertante, era enlouquecedor, e colocar a cabeça no lugar se tornava uma tarefa pra poucos. Depois de um tempinho sentados, estiquei uma mão pra ela e voltei a falar: “Então, lembra de ontem que eu queria tanto chegar ao topo? levanta! Levanta que você vai me levar!”. Ela me deu a mão, levantou, e decidimos prosseguir, afinal, faltavam apenas 3 horas e parados ali, iríamos congelar.

Logo em seguida, começou um vendaval assustador e o frio aumentou consideravelmente. O que era aquilo? O guia ignorante desgraçado nem se pronunciou enquanto o vento quase nos carrega montanha abaixo. E nem eu, nem a espanhola falamos nada. Talvez fosse a montanha querendo nos avisar que devíamos voltar. Mas não demos ouvidos, e crentes fieis ao maldito, fomos o seguindo sem questionar. Foram pesados 30 minutos de caminhada, sentindo o vento cortar a pele e cegar os olhos, até que fomos contemplados por uma tremenda calmaria. O Sol apareceu, a neve brilhou e o clima esquentou. Era o sinal que estávamos esperando. A montanha finalmente havia desistido de nos impedir.

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“O Sol apareceu, a neve brilhou e o clima esquentou. Era o sinal que estávamos esperando. A montanha finalmente havia desistido de nos impedir.”

3° Dia – 9:00 am:

Mas ela tinha uma última cartada…

3) Qual foi o maior perrengue que você passou?

Como se já não bastasse a eterna falta de ar, a dor aguda nas pernas, o cansaço, o psicológico abalado pela busca sem fim, a dor na garganta pelo ar gelado, a ponta do nariz doendo de tão fria, veio mais essa. De repente, agora que minha atenção havia se restaurado a todo corpo e não só as minhas funções vitais, percebo que não sinto meus dedos do pé direito. O guia risonho me perguntou se estavam formigando. Eu respondi que antes estavam, mas que agora eu já não sentia mais nada. Paramos um pouco, sentei no chão, e comecei a despir meus pés. Tirei minha enorme bota e as 3 meias que vestia. Quando a última saiu, o susto. Meus 3 dedos da direita pra esquerda estavam meio esbranquiçados, meio roxos. Até então, eu não sabia de nada e só olhei pra cima com cara de interrogação. O guia, que até então só dava risada de tudo, fez uma cara de enterro e fez o único barulho que eu não queria ouvir naquele momento…

“Anh!!!”

“ANH O QUE?!!!! CONVERSA COMIGO DIREITO! QUE HOUVE? CONGELOU? NECROSOU? MORREU? FALA ALGUMA COISA ESTRUPÍCIO!”

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“Disse que meus dedos estavam quase congelados, e que se não os esquentasse logo, eles poderiam necrosar e por fim, …”

E ele não disse nada. Continuou sério e me pediu que colocasse as meias e em seguida, que lhe desse meu pé. Começou a esfrega-lo (futuramente descobri que não era a melhor solução, cabron!!!), e de tempos em tempos… é, sem nojinho, colocava meu pé embaixo do seu braço, mais conhecido como suvaco, axila, isso aí. Continuei não sentindo quase nada, e com as duas mãos na cabeça, pensei o quão caro seria perder 3 dedos do pé pra chegar ao topo da montanha. Finalmente ele abriu a boca e me explicou. Disse que meus dedos estavam quase congelados, e que se não os esquentasse logo, eles poderiam necrosar e por fim, … Ótimo! Eu estava andando sem parar a praticamente 8 horas, tinha subido a maior parte da porcaria da Nhaca Aca Huayna Potosi, e faltando somente uns 30 / 40 minutos para finalmente alcançar o inalcançável topo, ele me vem com esse papinho de perder os dedos. E agora? Desisto e desço? Continuo e perco os dedos?

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“Nessa hora, eu tinha certeza que iria chegar ao topo, com, ou sem meus dedos…”

Ele me disse que se não parássemos de andar, o pé não ficaria parado na neve, e que se o pé não ficasse parado na neve, não ficaria tão gelado, e que se não ficasse tão gelado, ainda mais com o movimento contínuo, a circulação voltaria.  Então é assim, ou eu morro do coração, que batia desesperado pra oxigenar minhas extremidades quase congeladas (nem todas, minha cueca era North Face). ou eu paro pra descansar, e viro logo um boneco de neve.

Em uma decisão relâmpago, puxei meu pé, vesti a bota, pulei no chão, esperneei, gritei coisas sem sentido e finalmente disse, calmo e tranquilo:

O guia bateu nas minhas costas sorrindo e me disse umas palavras indecifráveis antes de seguir caminho, que no momento não fiz o mínimo esforço pra compreender.“E então….vamos?”.

Assim prosseguimos montanha acima. Nessa hora, eu tinha certeza que iria chegar ao topo, com, ou sem meus dedos…

3º Dia – 10:00am:

“Yo sabia. Brasileño fuerte. Dije que llegaría a lo cumbre!”.

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“Topo do Huayna Potosi, a 6.088 mts a.a.n.m.”

Essas foram as palavras do guia, quando pisamos no topo da montanha. É, consegui. Finalmente. Depois de quase

9 horas de subida e quase 1000mts de desnível acima, pude ter a sensação de dever cumprido. Nada mais, nem degraus, nem teto. Já ultrapassamos de longe as nuvens mais baixas e o Astro Rei brilha como se comemorasse com a gente a nossa chegada. Tirei as enormes luvas e enfiei a mão no bolso do meu macacão. Tive o imenso

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“Yo sabia. Brasileño fuerte. Dije que llegaría a lo cumbre!”.

prazer de estender minha bandeira do Brasil lá em cima, onde os “turistas brasileiros dificilmente conseguem chegar”. Estendi pra todos os – 2 – que pudessem ver. Cume do Huayna Potosi, a 6088mts a.a.n.m., brigados até o último momento e compensados por uma vista espetacular. Claro que para alguns, essa montanha não é nenhum desafio, e esse conto vai parecer extremamente fora da realidade. Mas eu não sou alpinista. Sou um turista curioso, assim como você aí do outro lado. E pra mim, pra MINHA realidade, isso foi, porra, isso foi FODA!!! Uma prova de que, se a gente quiser, e brigar, e insistir, nós conseguimos qualquer coisa. E se a gente tiver um guia desses, no fim das contas, faz toda a diferença. Valeu guia, seja lá qual for o seu nome, sem você me pentelhando, e me tirando do sério, eu jamais conseguiria provar pra você que consegui.

Você realmente sabia o que estava fazendo. 

“Contudo, em certas horas eu me perguntava se não teria vindo assim tão longe só para descobrir que aquilo que estava de fato procurando era algo que eu havia deixado para trás.” Thomas F. Hornbein

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